Não se trata de quanto fertilizante você tem — mas do que você faz com ele
O CEO do Haifa Group, Motti Levin, compartilha insights sobre a transformação em curso na indústria de fertilizantes em geral, e especialmente à luz dos atuais desenvolvimentos geopolíticos e das tensões no Golfo Árabe e no Estreito de Ormuz:
O confronto contínuo entre os Estados Unidos e Israel com o Irã, e as ameaças de bloqueio do Estreito de Ormuz, não são apenas uma questão de segurança ou geopolítica. São um lembrete claro de quão frágeis são, de fato, as cadeias globais de suprimento. Por esse estreito corredor marítimo passam regularmente grandes volumes da energia mundial, principalmente gás natural, além de insumos críticos para a indústria de fertilizantes, como amônia e ureia.
Para uma indústria que depende da disponibilidade de energia e do livre fluxo de matérias-primas, isso representa um impacto potencialmente profundo. Mas, além dos efeitos imediatos sobre preços e oferta, esses eventos destacam uma mudança mais profunda: uma transformação na forma como os fertilizantes devem ser compreendidos.
Grande parte da atenção ainda está voltada para questões de disponibilidade: há fertilizante suficiente? De onde ele vem? Como garantir a continuidade do abastecimento? Essas são perguntas importantes, mas não são o centro da questão. A pergunta central da próxima década é diferente: como extrair mais de cada quilograma de fertilizante?

Uma mudança no modelo econômico da indústria
Historicamente, a indústria de fertilizantes foi construída sobre três pilares: escala, custo e acesso a matérias-primas. Hoje, os três estão perdendo sua exclusividade. A vantagem competitiva está gradualmente se deslocando para a capacidade de gerar valor no campo, por meio de agronomia de precisão, tecnologia e soluções que entreguem resultados mensuráveis para os agricultores. Em outras palavras, a indústria está deixando de ser um negócio de fornecimento para se tornar um negócio de desempenho.
A implicação econômica é profunda: empresas que não conseguirem demonstrar ganhos de produtividade por quilograma de fertilizante terão dificuldade para permanecer relevantes, mesmo que sejam fortes em termos de recursos.
A volatilidade é o novo normal
A tentativa de “esperar o mercado se estabilizar” já não é uma estratégia realista. A volatilidade nos mercados de energia, a fragmentação geopolítica, as interrupções no comércio e as mudanças climáticas não são eventos temporários, mas características estruturais do novo ambiente de negócios. Nesse contexto, a gestão de riscos baseada apenas em previsões é insuficiente. Uma abordagem mais eficaz é reduzir a exposição, principalmente por meio da melhoria da eficiência no uso de fertilizantes e do alinhamento preciso dos insumos às necessidades das culturas.
O fim do dilema: segurança de abastecimento vs. eficiência
No passado, empresas e países eram obrigados a escolher entre segurança de abastecimento e eficiência. Hoje, a tecnologia permite combinar ambos: usar menos matérias-primas e, ao mesmo tempo, alcançar resultados mais estáveis e melhores.
Essa mudança também está reformulando a alocação de capital na indústria: menos investimento na expansão de volume e mais investimento em inovação, produtos avançados e soluções baseadas em conhecimento.
O poder está migrando da mina para o campo
A estrutura de poder na indústria está mudando. Embora os players com acesso a recursos naturais continuem importantes, a verdadeira influência está se deslocando para aqueles que controlam os resultados no campo. Empresas que ajudam os agricultores a produzir mais com menos insumos não estão apenas respondendo à demanda — elas a estão moldando. Trata-se de um novo tipo de vantagem competitiva: controle por meio de valor, não de volume.
Ao mesmo tempo, o mercado global caminha para uma fragmentação regional, impulsionada por restrições à exportação e políticas nacionais. Isso implica uma mudança da otimização global para a resiliência regional. Nesse cenário, flexibilidade e eficiência tornam-se mais importantes do que escala por si só.
A segurança alimentar está sendo redefinida
Até mesmo o conceito de “segurança alimentar” está mudando. Se no passado a questão era se seria possível produzir alimentos suficientes, hoje a pergunta é se isso pode ser feito de forma economicamente viável. A diferença entre os custos dos insumos e os preços das culturas está exercendo forte pressão sobre os agricultores. O resultado não é necessariamente uma redução no uso de fertilizantes, mas sim uma demanda crescente por soluções que ofereçam retorno claro sobre o investimento, estabilidade e previsibilidade.
Uma métrica que conecta tudo
Em meio a todas essas mudanças, um indicador se destaca: a Eficiência no Uso de Nutrientes (NUE). Trata-se de uma métrica que conecta dimensões econômicas, ambientais e agronômicas, tornando-se um indicador central de desempenho para a indústria. Produtos avançados, incluindo bioestimulantes (“vitaminas para plantas”) e fertilizantes especiais, deixaram de ser um nicho e passaram a ser ferramentas essenciais para lidar com a incerteza.
O verdadeiro teste da indústria
Em última análise, a questão não é se a indústria vai crescer, mas como. Nos próximos cinco anos, o setor de fertilizantes passará de um foco em fornecimento para um foco na otimização da produtividade. As empresas que terão sucesso serão aquelas capazes de entregar valor mensurável aos agricultores: maior produtividade, menor risco e menor impacto ambiental.
O maior erro estratégico será continuar competindo por volume. Em um mundo de recursos limitados e crescente incerteza, a vantagem não será de quem produz mais, mas de quem consegue extrair mais de cada quilograma.